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quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Boas Práticas Rurais em Tibina

Uma das entrevistas mais interessantes que realizamos numa parceria com Emílio Gusmão e Marcos Penha foi aquela realizada na propriedade rural comandada pela paulista Geane, no distrito de Tibina, Ilhéus. Sua lição: Agricultura orgânica, energia alternativa e produtos regionais produzidos na roça.













quarta-feira, 11 de abril de 2012

Entrevista: Rones Flasgordes dos Santos Souza

Entrevista publicada originalmente no Site Esperança conduru

“Eu vi uma coisa que acredito muito: Educação ambiental para crianças.”.

* Rones Flasgordes dos Santos Souza, 42, nascido em Ilhéus/ BA, tem formação técnica em Agropecuária pela antiga Escola Média de Agropecuária Regional da CEPLAC (EMARC), de Uruçuca/ BA, desde 1986. Com graduação em Gestão Ambiental pela UNOPAR, hoje, ele compõe o quadro técnico do Instituto Floresta Viva (IFV). Participa ativamente de projetos socioambientais no sul da Bahia. Já prestou colaboração a Instituto Cabruca, Care Internacional, dentre outras. Atualmente, Rones desenvolve pesquisa com espécies arbóreas nativas da Mata Atlântica, como trabalho final do curso de mestrado em Conservação da Biodiversidade e Desenvolvimento Sustentável pela Escola Superior de Conservação Ambiental e Sustentabilidade/ Instituto de Pesquisas Ecológicas (ESCAS)/ IPÊ). Nessa entrevista exclusiva, ele fala de sua experiência com o projeto de educação ambiental da Vila Juerana (distrito localizado na zona norte de Ilhéus) e da importância desse trabalho para o Corredor Ecológico Esperança Conduru. 
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Qual a importância de falar sobre meio ambiente para as crianças da Vila Juerana?

# Foi uma experiência muito bacana. Fiquei bastante emocionado ao falar para as turmas de 1ª, 3ª e 5ª série. Acredito muito na educação ambiental para crianças que se encontram nesse nível escolar. Nós, adultos, temos a capacidade de aprender e, às vezes, somos conscientizados e até sensibilizados; mas daí a pormos em prática o que aprendemos é uma distância muito grande. Depende de atitude e mudança de hábito. Já as crianças, são puras, verdadeiras. O que elas aprendem, colocam em prática, imediatamente, chegando inclusive ao ponto de corrigir aos adultos de casa.

O que ficou marcante nessa experiência?

# O interesse e a participação ativa das crianças, principalmente das mais novas, da 1ª série, que se comportaram com a irreverência peculiar a idade, mas que obtiveram bom proveito. Fiquei muito impressionado, também, com a iniciativa das professoras: dedicadas, organizadas e, principalmente, comprometidas com a causa ambiental. Elas, espontaneamente, procuraram o Instituto Floresta Viva para que realizássemos esse trabalho. Isso nos deixou animados demais. Nos trabalhos, aconteceram dramatização, poesia, música, tudo relacionado ao meio ambiente. Elas ‘linkaram’ as datas 14 de março (Dia da Poesia), 21 de março (Dia Internacional das Florestas) e 22 de março (Dia Mundial da Água). Muito interessante!
O adulto sente dificuldade de se sensibilizar com a causa ambiental, ao ponto de dissociar bichos e plantas dos seres humanos. Na sua opinião, o caminho mais eficiente para sensibilização é através da criança?

# Tenho trabalhado com comunidades, assentamentos, restauração florestal, pesquisa. Sinto que o que é transmitido à criança replica em atitudes imediatas. O adulto não se comporta com a mesma eficiência. Por isso, queremos continuar apoiando iniciativas como essa da Vila Juerana. Inclusive, ficamos no compromisso de doar três mudas da espécie “Juerana Litoral”, que é bem ligada a essa Vila. Faremos noutro momento, quando as crianças plantarão essas árvores. Fico feliz por termos formado uma parceria forte com essa equipe de educadores.

Qual o conteúdo abordado em sua palestra na Vila Juerana?
# Na oportunidade, aproveitamos a temática meio ambiente: água, árvore, utilizando a arte, como poesia, teatro e música para ilustrar. Não poderia ser diferente naquela região. Falamos do Corredor Ecológico, pois o local se encontra na área que podemos considerar como o coração do Corredor. Tem um rio fantástico que passa atrás da Vila. Explicamos o que é Área de Proteção Permanente (APP) e sua importância. Todos ficaram conscientizados de que margens e nascentes do rio são uma APP. Nos rios, existe a mata ciliar, responsável por sua proteção. Sem essa mata, os rios ficam fragilizados, sujeitos a assoreamento, deixando a lâmina d’água cada vez mais rasa, resultando na perda da diversidade de peixes, que fogem espantados. Noutra ocasião, a turma terá a oportunidade de visitar o viveiro de espécies nativas, que fica na estrada Ilhéus/ Uruçuca, mantido pelo Floresta Viva; o Parque Estadual da Serra do Conduru (PESC), em Serra Grande; e o Parque Municipal da Boa Esperança, em Ilhéus. A ideia é fazer um TUR bacana pelo Corredor. É um investimento nas crianças, para que amanhã tenhamos adultos conscientes do consumo responsável e da conservação da natureza. É importante que conheçam essa rica região e saibam que é um privilégio morar nela.

O trabalho realizado na Juerana despertou interesse de outros professores?# Sim. Havia uma representante da secretaria municipal de Educação de Ilhéus, que manifestou o interesse em expandir essa experiência para outras comunidades. É bom que divulguemos a existência de nossas riquezas naturais, nossas florestas e a importância da conservação para os seres humanos.

Qual a importância da Educação Ambiental para a consolidação do Corredor Ecológico Esperança Conduru?
# Faço a reflexão de que, às vezes, algumas pessoas emitem determinadas opiniões sem ter a real consciência, sem propriedade das informações, que são passadas de maneira superficial. Isso acontece por causa da pouca divulgação. Quando nós andamos às margens da rodovia ilhéus/ Uruçuca, em especial em Serra Grande, que tem muita área de ‘cabruca’, temos a sensação de que há muita mata. No entanto, quando apresentamos as informações, através das imagens aéreas, de nossa realidade florestal, constatamos que temos menos de 7 % da mata original. Esse percentual é muito pouco. Nós fazemos parte do Corredor Central da Mata Atlântica, do Corredor Esperança Conduru. É uma área nobre, considerada dentre as áreas de maior importância para a preservação de todo o planeta. Não é a toa que essa região é considerada como Reserva da Biosfera. Esse valor é percebido mais de fora para dentro. Nossa sociedade precisa tomar propriedade disso, sentir orgulho e ter um zelo maior com essa riqueza em benefício das gerações presente e futura. Temos a obrigação de manter o planeta mais saudável.

terça-feira, 27 de março de 2012

Entrevista com Marcelo Barreto - Gestor do Parque Estadual Serra do Conduru

    Ilustram essa reportagem fotos de Castilho (acima) e Janduari Simões.
 Acervos do Instituto Floresta Viva e PESC.

Uma das unidades de conservação (UC) da Mata Atlântica, mais importantes do nordeste brasileiro, o Parque Estadual Serra do Conduru (PESC), completou 15 anos de criação em fevereiro último. Nesse período, muitas lutas e conquistas em favor da proteção de uma floresta considerada como uma das mais importantes para a proteção da biodiversidade.

Marcelo Barreto, 45, gestor do PESC, fala sobre sua gestão e dos desafios do Corredor Ecológico Esperança- Conduru, anuncia novos investimentos e garante que a área obterá ganhos significativos ainda em 2012.

Marcelo é engenheiro agrônomo, e técnico concursado da Secretaria de Meio Ambiente (SEMA) do Estado da Bahia, cedido ao Instituto Estadual do Meio Ambiente (INEMA). Confira a entrevista a seguir:

Qual a abrangência e os limites do Parque?

# O parque está inserido em três municípios: 15% na área norte de Ilhéus; 45% em Uruçuca - que corresponde a 12% desse município; e o restante, 40%, no município de Itacaré. Isto complica um pouco a administração do Parque, pois temos que lidar com três comarcas, três prefeituras, três municípios totalmente independentes.

O PESC é o maior parque do sul da Bahia. Qual a sua importância para a proteção da Mata Atlântica?

# O PESC foi uma proposta dos ambientalistas, um ganho da sociedade civil. São 9.275 hectares, dos quais 52% já estão regularizados, e sob o domínio do parque. Temos fragmentos florestais, que são considerados de alta relevância para a preservação das espécies. No sul da Bahia, nós temos 80% do restante da mata atlântica de toda a região Nordeste. O Conduru é área foco, considerada de relevância para a mata atlântica como o todo.

Qual a importância do PESC em níveis nacional e internacional?

# O PESC tem maior visibilidade internacional. Foi recorde em biodiversidade, e varias instituições importantes, a exemplo do Jardim Botânico de Nova York, estiveram aqui para constatar o que temos de tão precioso.

Qual a importância para o sul da Bahia?

# O PESC agrega as mais diversas instituições, nas três esferas. Temos, aqui, no Parque, conceitos de gestão que estão sendo implantados em nossa região. Poucos lugares no mundo têm a possibilidade de obter esses benefícios. 

Como o PESC está inserido no corredor ecológico?

# Os Corredores são um programa da UNESCO (1), financiado pelo PPG7 (2). Nesse programa, foram eleitos dois corredores prioritários para investir esses recursos: os Corredores Central da Mata Atlântica e Central da Amazônia. O Corredor Central da Mata Atlântica abrange todo o estado do Espírito Santo, passando pelo extremo sul, sul e baixo sul da Bahia. Trata-se de uma área muito extensa. A proposta dos financiadores consistiu em diminuir a extensão dessa área, focando em algumas, para que haja a intensificação dos investimentos. O PESC foi contemplado como prioridade. Existem outras instituições, que também estão disponibilizando recursos para serem investidos em projetos de pesquisa e conservação em nossa região.

Qual o relacionamento do PESC com as comunidades circunvizinhas?

# É uma questão relacionada a mudança de paradigma. As comunidades tinham, tradicionalmente, uma cultura de sobrevivência, de extração da madeira. Nosso objetivo é que as comunidades ganhem dinheiro com a floresta em pé. Representa mudança de cultura. Não desconhecemos que ainda existem infratores desmatando e caçando. Só que já diminuiu bastante esse problema. Não temos mais tantos problemas com a prática da agricultura familiar. Hoje, os moradores do entorno da área de influência do Parque são parceiros, auxiliando na denúncia de eventuais infratores.

Já é possível constatar o uso sustentável e inteligente da floresta?

# Com certeza. Só dentro do Conduru, são 164 hectares de área reflorestada. São sementes e mudas vindas de agricultores, projetos e recursos disponibilizados para as ONG´s (3). As comunidades têm-se especializado e executado seus trabalhos. Foram vários cursos a respeito de coleta de sementes, reposição florestal, viveiro e produção de mudas. Hoje, as comunidades têm outra concepção relativa a floresta.

Isso é suficiente para coibir a ação de invasores e pessoas que insistem em manter um relacionamento ruim com o Parque?

# O estado da Bahia pecou, por não termos, no quadro de funcionários, os guarda-parques. O problema é que o Parque possui muitos acessos, que facilitam a ação de invasores, principalmente nos fins de semana. Infelizmente, ainda não temos uma fiscalização sistematizada. Estamos resolvendo essa questão ainda esse ano. Só com os guarda-parques, teremos o domínio total da área. Por enquanto, as comunidades, formada por agricultores e proprietários do entorno, desempenham o papel de guardiões.

Os invasores colocam em risco a sobrevivência do Parque? A destruição provocada influencia negativamente os recursos? Qual o prejuízo?

# O nosso temor é que haja perda do que não conhecemos. Quando se derruba uma árvore, derrubam-se, com ela, centenas de vida, que ainda não foram pesquisadas, identificadas, codificadas. Com isso, a gente perde, e não sabe o que está perdendo. Então, é dificil mensurar o que se está perdendo no sul da Bahia. Estamos num ponto agora de assegurar, ao máximo, o que resta.

Muito se fala da biodiversidade dessa região, mas a maioria da população, mesmo local, desconhece a diversidade de plantas e bichos que temos aqui. Nos fale um pouco mais sobre essa riqueza.

# Diferente das Savanas, na Mata Atlântica, é mais difícil para contatar com os animais, até porque, hoje, esses animais estão na linha da sobrevivência, correndo atrás do prejuízo, e os caçadores são sempre uma ameaça. O fato do Parque está interligado com outros fragmentos, faz com que ele ainda tenha muitos animais ameaçados de extinção, como a iara, a lontra, o macaco-prego-do-peito-amarelo, o jacaré-do-papo-amarelo e a onça parda. O Parque também protege vários pássaros ameaçados, como o mutum-do-nordeste e a harpia. Temos que considerar, também, muitos animais que ainda não foram identificados. Os animais precisam de grandes extensões, e o PESC é um bom refúgio para vários grupos, de várias espécies. Nós temos aqui várias espécies na lista vermelha do IBAMA (4). O Estado da Bahia também está formulando a sua própria lista de espécies em condições de risco.

Existem programas para evitar que essas espécies desapareçam de vez, que sejam extintas?

# A principal ameaça da perda da diversidade é o desmatamento. Enquanto a gente não conseguir combater totalmente esse mal, essa ameaça vai continuar sendo real. Outra questão é a introdução de espécies exóticas, que é a segunda causa de perda de biodiversidade. Como nós temos vários fragmentos, isto impede um pouco a introdução dessas espécies. Nós temos o capim brachiaria, o próprio cacau e a seringa, que são da Amazônia, e várias outras espécies que acabam ameaçando a fauna nativa.

Então o desmatamento continua?

# Já esteve pior. O desmatamento foi muito mais intenso. Minha vontade é que seja reduzido a zero, que ninguém tire nada de dentro do Parque.

Como você vê a implantação do Corredor Ecológico Esperança-Conduru, e qual o seu reflexo no para o futuro da região?

# Antigamente, pensava-se que só preservar uma unidade de conservação bastaria. Era o pensamento da ‘ilha’, que não se concretizou. As espécies precisam ser dispersadas; precisam de cruzamentos ao longo do tempo; e quanto maiores essas áreas, e a integração com outras unidades, melhor para a floresta e o homem, só têm a ganhar.

Parte da opinião pública regional acha que a proteção desses remanescentes do sul da Bahia é um radicalismo, e que isto conspira contra o desenvolvimento. O que tem a dizer sobre isso?

# Dá para conciliar muito bem desenvolvimento com preservação. O que está faltando é adequar, equilibrar as coisas. Hoje, você vê no sul da Bahia que a produtividade é baixíssima. São muitas áreas abertas sem produzir nada.  Acho que não precisamos abrir mais nenhuma área para produzir. O que nós precisamos é de levar tecnologia para o campo, melhorar os plantios, nossas criações, e assim, com certeza, todo mundo sai ganhado: o homem, o meio ambiente, o país.


Você disse que apenas 52% da área desapropriada para o Parque já foi regularizada. Analisando esse percentual, que ultrapassa um pouco a metade da área total, você acredita que, em quanto tempo vai ser possível alcançar a regularização total?

# A lei do SNUC (5)  prevê que 0,5% dos grandes investimentos sejam destinados à compensação ambiental, e aponta que a prioridade para esses investimentos é a regularização fundiária das Unidades de Conservação (UCs). Hoje, a Bahia tem em torno de 40 a 50 milhões já disponíveis, e criou uma Câmara de Compensação Ambiental, que está funcionando dentro da diretoria, através de um grupo formado para a consolidação territorial e regularização fundiária das Ucs. Esse final de semana já tem um grupo de São Paulo fechando um termo de referência para contratação de uma empresa especializada, e acredito que isso dará mais celeridade a esse processo de regularização fundiária.

Como tem atuado o Conselho gestor do PESC?

# O Conselho Gestor é da maior importância para as Unidades de Conservação. A gestão participativa, na verdade, começou com essas unidades, e hoje é uma realidade em vários segmentos. O Parque está de parabéns. Tem uma secretaria atuante. Acabamos de aprovar um projeto no FunBio (6), que dará uma nova dinâmica ao Conselho, e, ainda esse ano, queremos avançar bastante, juntos, pensando coletivamente.

O parque tem recebido visitantes, pesquisadores? Qual a procura pelo Conduru?

# Intensificou-se bastante a procura pelo Parque, pelo fato do aumento de sua área. Os pesquisadores ficaram sabendo da biodiversidade existente. A procura é grande. São várias universidades, como a UESC, a UESB, a UFBA, além das universidades americanas que fazem pesquisas. O Parque tem uma agenda semestral, sempre com visitantes por aqui. Tem muito material sendo produzido por pesquisadores e estudantes.

O parque dispõe de infraestrutura para alojar esse público?

# Temos uma pequena infraestrutura, que contempla essa demanda. São 40 leitos disponíveis para hospedagem de estudantes e pesquisadores. A proposta, inclusive é melhorar, dotando de novas estruturas, como camping, com o objetivo de atrair outro público. O governo está percebendo o aumento do interesse pelo PESC.

Você mora aqui?  Já teve problemas com os infratores por defender a preservação do PESC?

# Desde que assumi a função de técnico da Secretaria de Meio Ambiente morei aqui, com minha família, durante dois anos. Quando cheguei, existiam, pelo menos, 100 madeireiros sobrevivendo da extração ilegal de madeira. Eu, como gestor, preocupado com a preservação, sentia uma angustia muito grande. Procurei me fortalecer junto aos órgãos competentes na fiscalização, como o IBAMA, a CIPPA (7), a Delegacia de Proteção Ambiental, o Ministério Público, e a Polícia Rodoviária Estadual. Daí, as fiscalizações foram intensificadas. Consequentemente, vieram as retaliações, as ameaças. Queimaram um caminhão que estávamos conduzindo; tinham ameaças verbais. Chegou ao ponto de virem armados, aqui na sede. Tive que sair, às pressas, levando a minha família. Felizmente, diminuíram bastante o número de infratores e as agressões. Nosso objetivo é diminuir mais até acabar de vez.

Então, podemos dizer que esses infratores confundiam a sua missão de funcionário público, de representante do estado, com a sua vida pessoal?

# O dever da preservação é de todos nós. Essa consciência não foi ainda amadurecida pela sociedade. Para isso que existe o funcionário público e a força do Estado pra colocar ordem, onde não tem. Aqui, foi na base da força. Os madeireiros, os infratores, ainda vão ver muito a presença do Estado, da polícia, e inquéritos administrativos que ainda poderão ocorrer nessa área.

Quais os próximos passos na agenda do PESC?

# A reestruturação dos órgãos ambientais do Estado, ano passado, atrapalhou um pouco o andamento das coisas. Agora, a Diretoria das Unidades de Conservação, que era centralizada na SEMA, veio para o INEMA. Estamos numa autarquia com menos burocracia. Temos coordenadores e diretores pensando nas unidades de uso integral. Programas de uso público serão implementados em todas as unidades, bem como haverá a consolidação territorial, onde entra a regularização fundiária também das áreas de entorno do Parque.

Teremos um grande ganho com a contratação dos guarda-parques. O edital será publicado em abril próximo. A Casa Militar já esteve aqui e constatou a necessidade. Serão 20 guarda-parques armados, circulando no interior do Parque, mantendo sobvigilância as pessoas que circulam na área. Vale informar que, nessa reestruturação dos órgãos ambientais do Estado, foram criadas as Unidades Regionais (UR´s). Itabuna foi eleita como uma unidade regional. Ilhéus será um posto avançado, ligado a UR de Itabuna, mantendo sua independência. A tendência atual é de fortalecimento da gestão ambiental no sul da Bahia.

(1) UNESCO - Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura.
(2) Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil. É uma iniciativa do governo e da sociedade brasileira, em parceria com a comunidade internacional, que tem como finalidade o desenvolvimento de estratégias inovadoras para a proteção e o uso sustentável da Floresta Amazônica e da Mata Atlântica, associadas a melhorias na qualidade de vida das populações locais, O Programa Piloto constitui o maior programa de cooperação multilateral, relacionado a uma temática ambiental de importância global.
(3) ONG - Organização Não Governamental
(4) IBAMA - Instituto Brasileiro do Meio Amb. e dos Recursos Naturais Renováveis
(5) SNUC - Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza
(6) FUMBIO - Fundo Brasileiro para a Biodiversidade
(7) CICCA - Companhia Independente de Policiamento de Proteção Ambiental - BA
(8) UESC - Universidade Estadual de Santa Cruz
(9) UESB - Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia
(10) UFBA - Universidade Federal da Bahia

segunda-feira, 19 de março de 2012

ENTREVISTA: Eduardo Rodrigo Ferreira de Souza




A antiga Fazenda Boa Esperança, que se transformou no Parque Municipal da Boa Esperança, já era uma área oficialmente protegida desde a década de 20. Hoje, mesmo localizada nos limites da zona urbana de Ilhéus, ainda contempla 437 hectares de floresta, sendo refúgio de espécies muito raras, e santuário de fontes de água doce.
À frente da do parque, o estudante de agronomia, Eduardo Rodrigo Ferreira, também coordenador de Unidades de Conservação da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Ilhéus. Eduardo fala, nessa entrevista, sobre a sua gestão na Unidade de Conservação: problemas, conquistas e desafios.

O parque está localizado em área urbana. 
Quais os problemas que isto acarreta a sua conservação?

# O parque da Boa Esperança possui 437 hectares, e ele é circunvizinho de cinco grandes bairros de nosso município: Banco da Vitória, Fundão, Malhado, Distrito Industrial e Vila Nazaré. Então, é comum que a gente tenha uma ligação entre zona norte e Banco da Vitória. Os limites são abertos. Hoje dispomos de guardas florestais, que inclusive foram capacitados pelo projeto Corredor Ecológico, e a função desses guardas é fiscalizar esse perímetro. Como a gente não dispõe ainda de infraestrutura adequada para visitação, para um controle total na íntegra do parque, ficamos com nossas divisas desprotegidas; mas isso não quer dizer que esses limites não sejam monitorados.

As comunidades e os agricultores do entorno colaboram com a conservação do parque?

Temos propriedades limítrofes do parque, e esses fazendeiros são nossos parceiros, ajudando a identificar possíveis agressores. Há duas semanas, identificamos um indivíduo que estava extraindo madeira de Biriba, uma espécie ameaçada. Recebemos a denúncia e, de imediato, nossos agentes conseguiram autuar o agressor. Isso é parte da parceria que temos com as comunidades do entorno do parque. Os guardas desempenham o papel de fiscal, mas também de educadores ambientais. Temos uma prática de abordagem mais no sentido de conversar, conscientizar. Criamos um vínculo com a comunidade, para que eles possam passar informações de degradação. Temos uma política de intervenção com respeito às comunidades vizinhas, que, sabemos, em grande maioria, são carentes, e que muitas vezes tentaram utilizar-se do parque, sem o devido conhecimento de que se trata de unidade de conservação. Hoje, a comunidade é consciente de que o local abriga uma imensa riqueza, que precisa ser protegida.

Qual a importância do Parque?
   

# O parque é considerado um hotspot; ou seja, uma área quente de biodiversidade. É uma área que possui estudos realizados por CEPLAC (*), UESC (**) e The New York Botanical Garden, que identificou mais de 2.200 espécies de plantas. Trata-se de uma área com vasta riqueza de espécies da Mata Atlântica; inclusive, algumas delas, ameaçadas de extinção. Nós encontramos, no parque, por exemplo, madeiras de lei, como o pau brasil, que já não são fáceis de encontrar. A gente tem uma vasta riqueza de espécies em franco desenvolvimento, por ser uma mata primária com seu grande maciço preservado. Encontramos, também, muitas espécies de mamíferos, de primatas. Temos uma grande variedade de formigas identificadas em estudos da UESC. O parque é objeto de pesquisas acadêmicas de mestrado e doutorado do Programa de Desenvolvimento Regional e Meio Ambiente (PRODEMA).

Como o parque se insere no Corredor Ecológico?

# O parque possui áreas bem conservadas, trilhas muito boas, fácil acesso e um fluxo gênico muito alto. O objetivo do minicorredor é criar uma conexão, um corredor ecológico, de fluxo gênico entre o Parque Municipal da Boa Esperança, a Lagoa Encantada e o Parque Estadual da Serra do Conduru.

Sabemos que alguns municípios do sul da Bahia já sofrem com a escassez de água para o abastecimento. Diante desse quadro, qual a relação do parque com a disponibilidade de água para o consumo humano?.

# O objetivo inicial do município, quando adquiriu a Fazenda da Esperança, na década de 20, foi o abastecimento de água para Ilhéus. O parque abrange três grandes bacias hidrográficas de nossa região, e 51 microbacias do rio Sete Voltas. O município, atualmente, é abastecido pelas águas da Bacia do Iguape (represa no entorno do parque), e nós temos, dentro do perímetro do parque, as principais vertentes formadoras de três grandes bacias; e isso dá a garantia para o município, e, talvez, os municípios vizinhos, de abastecimento de água no futuro. Hoje existem estudos da Embasa para voltar a aproveitar essa água que temos no interior do parque, que é de altíssima qualidade, até mesmo pela dependência da cidade vizinha (Itabuna) de nossa água.

Por que o parque ainda não virou um atrativo turístico?

# O parque foi qualificado dentro da lei federal do Sistema Nacional de Unidades de Conservação na categoria de proteção integral. Nós já temos autorização prévia para realizar pesquisa científica e visitação pública, de forma controlada. Para isso, precisamos ter a infraestrutura adequada. Em 2001, o Ministério do Meio Ambiente, disponibilizou recursos para que o parque tivesse infraestrutura mínima de fiscalização, mas esses recursos não foram continuados e o projeto foi finalizado. De lá para cá, o município tem dificuldades financeiras para administrar o parque, e o que a gente consegue é, tão somente, manter uma equipe de fiscalização que trabalha todos os dias, incluindo finais de semana e feriados. Precisamos criar essa infraestrutura através de associações com organizações não governamentais,e das grandes empresas que estão instalando-se em nosso polo industrial. Isso é possível pela compensação ambiental, que é um instrumento legal. Uma infraestrutura dotada de guaritas, salas de visitação, melhoria dos acessos, etc., é muito caro, e o município não dispõe desses recursos.

Quais os desafios do Parque Municipal da Boa Esperança?

# A gente precisa dar subsídios para que as populações vizinhas possam sobreviver em harmonia com o parque. Já conseguimos diminuir a incidência de criminalidade, e voltamos a ter pesquisa no PMBE. Antes, isso não era possível pelo alto grau de violência. Pesquisadores e alunos da UESC voltaram para dentro do parque. Nosso desafio maior é manter essa biodiversidade e fazer com que a sociedade tenha conhecimento do que o PMBE representa. É muito importante manter uma unidade de proteção integral a 5 ou 10 minutos do centro da nossa cidade.

(*) Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira – Localizada no km 22 da rodovia Ilhéus/ Itabuna
(**) Universidade Estadual de Santa Cruz – Localizada no km 16 da rodovia Ilhéus/ Itabuna
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